Fico a pensar….as pessoas são iluminadas quando conseguem produzir textos tão surpreendentes que nos impulsionam a refletir e a mudar nosso modo de pensar e agir.

Uma dessas pessoas extraordinárias para mim é Rubem Alves. Hoje encontrei seu texto O Avesso, que me empolga pela forma com que instiga nossas reflexões. Inicia assim essa belíssima crônica.

” Humberto Eco sugeriu que se criasse uma Faculdade de Irrelevâncias Alternativas. Acho que os professores universitários não o levaram a sério, pensaram que se tratava de uma piada, pois estão por demais enrolados em suas “irrelevâncias oficiais” para acreditar que algo possa existir fora delas. Lichtenberg fez proposta semelhante a dois séculos. Disse ele:” Num momento em que só se pensa em construir universidades para espalhar o novo saber, eu sonho com o dia em que se construirão universidades para ensinar a antiga ignorância.” Aí entra Rubem Alves, Junto-me aos dois com a sugestão que se crie uma Faculdade do Avesso. Se há faculdade de Direito, que estudam as leis que regem a sociedade normal, é lógico e necessário que haja Faculdades do Avesso, dedicadas a estudar aquilo que se veria se o tapete estivesse virado ao contrário. Como nos ensina o Tão Te Ching, é preciso que haja o Avesso para que o Direito possa existir. Já pensaram num tapete sem avesso? Até Deus tem seu avesso, que é o Diabo.
E prossegue Rubem Alves, acontece que esses olhos que temos na cara, só conseguem ver o lado direito das coisas. Por isso diz Alberto Caieiro que não basta ter olhos para ver as coisas. Os Zen budista falavam na necessidade de que um terceiro olho fosse aberto, e a isso davam o nome de sartori. O poeta Cummings dizia a mesma coisa, e falava na abertura do olho que mora dentro dos olhos.
Gente que vê o avesso é o Paulo, dono da Floríssima, que visito sempre sem precisar comprar, por puro prazer. Gosto de ver as bonsais. Bonsais acho lindas. Penso com enorme ternura no homem que planta a arvorezinha, sabendo que ele só vai atingir a sua plenitude quando ele estiver morto. Eu tinha uma bonsai maravilhosa de 20 anos, que um amigo me deu. O jardineiro, não sabendo das delicadezas da velha arvorezinha, afofou a terra e pôs adubo estranho nela. Ela faleceu.. Sofri e resolvi que não a jogaria fora. Jogar fora seria o Direito da situação. Optei pelo Avesso. Tirei a terra do vaso, enchi de cimento, cobri com minúsculas pedrinhas, e envernizei o tronco morto. E lá está a bonsai, transformado em escultura.
Lembrei-me então do Gramanni, de quem tenho a felicidade de ser amigo. Dizem que ele é músico. Protesto e discordo: o Gramanni não é músico ele é música. Tudo aquilo que ele toca vira melodia, e o prazer dele é tocar Rabeca nome antigo para o violino. Mas hoje rabeca é nome de violino rústico, feito por artesão da roça, apresentando-se frequentemente, nu,sem as roupas de verniz. Violino é coisa fina, que combina com sobrecasaca e gravata borboleta. Rabeca, ao contrário, combina com botina e bolo de fubá. A rabeca é a prima caipira do cosmopolita violino. Pois o Gramanni gosta é das rabecas sem pedigrees e sem nome. Mas basta que ele as pegue para que elas comecem a produzir beleza. Já o vi mesmo tocando numa rabeca que os que só veem pelo direito jamais imaginariam que fosse capaz de fazer música. contráriacombina com botina e bolo de fubá. A rabeca é prima caipira do cosmopolita violino. Mas basta que ele as peque para elas,produzir belez. Já vi o mesmo tocando-numa Rebeca que os que só vêm do direito jamais imaginariam que fosse capaz de fazer música.

E esta crônica é também avesso do que não contei. É que a Fundação Catarinense de Educação especial convidou-me a fazer uma palestra sobre deficientes -cegos, surdos, síndrome de Down, paraplégicos – e pensei que os que moram no Direito olham para eles e o que vêem é deficiência mesmo, algo está faltando, não são iguais aos normais, devem ficar em Instituições especializadas para não atrapalhar – A Cinderela devia ser deficiente, senão sua mãe não a proibiria de ir ao baile, deixando-a trancada com as empregadas, era preciso escondê-la pois o embaraço dos pais seria muito grande se os olhos dos outros a vissem, seu lugar era mesmo junto ao burralho, e o seu destino era ficar lá, feito o coqueirinho queimado, abandonado, esperando a morte…
Mas do Avesso, tudo fica diferente a gente aprende do Paulo e do Gammanni que o avesso é o lugar onde a beleza mora, escondida, mas como na história da Bela Adormecida, é preciso que haja alguém que dê o beijo para despertá-la para que a beleza vire bonsai ou música é preciso que sejamos suficientemente sensíveis, que sejamos artistas.
Se os personagens dessa crônica forem artistas, então os deficientes ficarão bonitos e poderão viver espalhando alegria.”
Essa crônica de Rubem Alves nos provoca e direciona para uma reflexão da interatividade do côncavo e do convexo. Tudo tem avesso e direito. Precisamos predispor a ver de que lado se apresenta o mundo direito ou esquerdo e assim deixar despertar a melodia da vida. Só depende de cada pessoa, cada profissional, de cada olhar.

Vera Lucia Pereira Dias
Socióloga

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